domingo, 1 de maio de 2011

A vacina nacional contra pneumonia bacteriana será mais eficiente e acessível do que as atuais

O Instituto Butantan embarcou em um esforço para desenvolver uma vacina para a pneumonia bacteriana, que mata mais de 2 milhões de crianças todo ano no mundo. O Streptococcus pneumoniae (pneumococo), causador da doença, é também responsável por infecções do ouvido médio (otite média) e meningite. Essa bactéria possui uma espessa camada de polissacarídeos (PS) cuja composição química varia enormemente e serve de base para a classificação em sorotipos. Ao todo são 90 os sorotipos conhecidos, 23 dos quais provocam a doença. Alguns dos polissacarídeos que compõem a cápsula são extremamente imunogênicos, ou seja, induzem uma alta produção de anticorpos específicos. A intensa variedade estrutural, no entanto, faz com que os anticorpos produzidos contra um sorotipo não apresentem reatividade cruzada com polissacarídeos de outros. E existem diferenças na distribuição geográfica, fazendo com que haja prevalência de diferentes sorotipos em diferentes regiões do mundo.
Uma das vacinas atuais utiliza PS das 23 cepas de pneumococo mais prevalentes nos EUA e na Europa. No entanto, essa vacina não imuniza crianças abaixo de 4 anos, e é pouco duradoura em idosos, que são os principais grupos de risco. Para ampliar a proteção, foram desenvolvidas vacinas de polissacarídeos conjugados com proteínas carreadoras. A imunidade, no entanto, ainda é direcionada ao polissacarídeo e, portanto, tem ação protetora limitada, sendo necessário incluir vários conjugados para alcançar uma cobertura contra mais sorotipos. Uma vacina desenvolvida para os Estados Unidos contém sete conjugados, mas caso fosse usada no Brasil, apresentaria uma cobertura de somente 50% a 60%. Além disso, seu custo de US$ 60 por dose (e são necessárias quatro), a torna inviável no sistema nacional de saúde pública, com vacinação básica gratuita.

Uma proposta para aumentar a abrangência de uma vacina é identificar um antígeno comum. Esse antígeno, provavelmente protéico, poderá ser produzido em larga escala por tecnologia recombinante. As proteínas candidatas são a PsaA (antígeno de superfície de pneumococo A), PspA (proteína de superfície de pneumococo A) e a pneumolisina. A PsaA e a pneumolisina apresentam baixa variabilidade genética, e a PspA pertence a duas grandes famílias.

Para obter um medicamento de ampla cobertura e baixo custo, o Butantan está envolvido no desenvolvimento de uma vacina recombinante, baseada nas proteínas mais conservadas de pneumococo, e investiga diversas formas de apresentação dos antígenos. Nossa equipe pesquisou as proteínas PsaA, PspA e pneumolisina, expressas em um ou mais dos diferentes sistemas de apresentação em forma de vacina: proteína recombinante conjugada ou não a polissacarídeos prevalentes no Brasil, lactobacilos recombinantes e vacinas de DNA. Já havia sido demonstrado que a PsaA recombinante teria efeito protetor contra a colonização da bactéria: sua fusão com o CTB, um adjuvante de mucosa, potencializou a proteção. Uma vacina viva de lactobacilos recombinantes expressando a PsaA também mostrou inibição da colonização na nasofaringe de camundongos. A pneumolisina foi investigada na forma de proteína recombinante e vacina de DNA, e os resultados revelaram que os derivados com mais toxicidade residual apresentaram maior efeito protetor.

Já a PspA é uma grande candidata para a vacina, e sua diversidade genotípica também foi confirmada no Brasil. Nossos estudos demonstraram que PspAs recombinantes representantes das duas famílias, isoladas ou em fusão, na forma de proteínas recombinantes ou como vacinas de DNA, induziram a formação de anticorpos capazes de proteger camundongos contra cepas virulentas contendo PspAs das duas famílias e de diferentes sorotipos. Além disso, a conjugação de PspA com um polissacarídeo prevalente no Brasil aumentou o nível de proteção.

O Children’s Hospital, de Harvard, propôs a utilização de uma vacina celular inativada usando cepa não encapsulada, que mostrou induzir forte proteção contra colonização de pneumococos de diversos sorotipos, ainda testada em camundongos. Em uma parceria com o Butantan, a vacina deverá ser testada em humanos. Se os resultados forem positivos, sua produção teria baixo custo e poderia ser implementada em qualquer país em desenvolvimento.

Fonte: http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/nova_estrategia_contra_pneumonia.html

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe seu comentário.